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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Estórias da vida

Dizia ela que: -  não sou culpada do leilão que temos feito dos valores tradicionais, eu não sou senão uma mulher com mau feitio, sei que não tenho amor, nem recebo nem dou amor, nem ofereço amor, nem entrego nem vendo amor, nem inflamo amor como se queimasse anciões mortos,  homens mortos, cães e cabras mortos em Benares, sei isso de sobra, ao que parece o meu corpo e a minha consciência já estão esvaziados de boas vibrações, sei que se estilhaçou no meu espírito o nível vibratório da energia vital, eu não passo de uma mulher já não jovem e com má saúde, sei que no meu coração se aninham o ódio, a inveja e o ressentimento, sei que não passo de uma agonizante, sei que o meu cadáver acabará na sala de autópsia do hospital entre jovens estudantes a morrer de riso, é muito engraçado levar no bolso um dedo de morto com unha e tudo, levar o pénis é mais insignificante pois fica reduzido a nada, e deitá-lo na panela do guisado da patroa da pensão não é boa ideia, ainda que seja tentadora.

Créditos - Camilo José Cela - adaptado de A Cruz de Santo André

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