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folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

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Poesia e cenas do dia-a-dia

Estórias de não contar

Armo-me de coragem e de melancolia e confesso sem qualquer rubor ter pecado contra todos os mandamentos da lei de Deus, mas penso que já me fizeram pagar a penitência a preço muito elevado e que não seria justo que agora, que vou morrer, agora que já ouço a morte a repicar na aldraba da porta do meu quarto de dormir e de morrer, me mandassem para o inferno para continuar a arder pelos séculos dos séculos, é provável que o inferno esteja vazio, se calhar no inferno nem lá está o Judas e eu considero que seria muito desairoso lá acabar, bom, nem sequer acabar, ver-me ali a arder na infinita solidão e pela infinita eternidade. Há já mais de um mês que o fantasma da morte mija todas as noites pelo cano da chaminé da minha alcova, parece que me quer avisar com o seu riso histérico, as suas malévolas ameaças e a suas descaradas javardices. O demónio Belzebu Seteventos, que era de Seixomil, na província do Minho, tinha uma pomba torcaz que não punha ovos de ouro, isso é só algumas galinhas, é do domínio público que não punha ovos de ouro mas que fabricava no intestino bustos de ouro de Salazar muito bem desenhados, e que todas as primeiras segundas-feiras do mês expulsava pela referida conduta. Segundo o cardeal Cerejeira, o nosso catolicismo não estava em condições de assimilar o concílio, por isso, o melhor, é continuarmos hereticamente pecadores.

Créditos - Camilo José Cela - A Cruz de Santo André - (adaptado)

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