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folhasdeluar

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Gestos passageiros.

Gestos passageiros. Todo o gesto pode ser um conflito ou...uma defesa. Sabemos perfeitamente acender um cigarro. Disparar um revólver. Salgar o peixe. Conhecemos a beleza de uns olhos castanhos. A profundidade de um beijo. A lonjura de uma causa. Dominamos a terapêutica dos sentimentos. A vigília improvável da respiração. A ansiedade de uma dialética proibida. Somos chão, ruído, porta. Semeamos linhas intransponíveis entre quem somos e quem gostaríamos de ser. Andamos apoiados em duas pernas e deslizamos pelos dias como se andássemos de gatas. Somos múltiplos. Sistemáticos. Testamos os sentidos em cada esquina e ficamos encurralados numa secretária onde desfiamos a vida. Despimos a camisa. Matamos a sede. Somos involuntários anjos a desafiar cometas. Somos mesmo aquele nosso interior que negamos com a veemência e lucidez dos loucos. Vigiamos cada ataque dos olhares como quem persegue a existência dogmática da alma.

 

Lama. Porque é que estamos sempre à espera de cair num charco de lama? Que temor nos causa a lama?

Cavalos a trote. Balbúrdia de cascos. Lama a pegar-se à pele. Arranhar o chão...perder a vontade de ter vontade. Em cada fechadura há uma vontade de cerrar os dentes. Observar o mistério de cada repuxo da alma. Súmula de factos é o que nós somos. Resenha de opiniões contraditórias. O nosso ar de sono desbotado acorda com o implacável amanhecer. Queremos chegar à janela e pedir ao dia só mais uns segundos. Algo que nos faça esquecer o movimento ritmado dos corpos a caminho da rotina. Ouvir tudo como se tudo fosse inútil. E na inutilidade de tudo...despertar e dizer que venha lá mais um dia. Lindo.