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folhasdeluar

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Histórias da minha casa#1

Havia em casa dos meus pais uma parede cheia de fotografias antigas. Eram fotografias a preto e branco, sépias desbotadas e outras onde o amarelado do bolor deixou a sua marca. Havia até uma em que eu, com três ou quatro anos, me empoleirava num banco e dava a mão ao meu pai fazendo pose para a fotografia. Mas também descobri uma coisa, o meu pai nunca sorria para as fotos, tinha sempre o mesmo rosto fechado, como se tirar uma fotografia fosse a pior coisa do mundo. Nesse aspecto saí a ele. Sempre que alguém me tira uma foto e me pede para sorrir, em vez de o fazer, acabo sempre com um ar esgazeado e nem percebo porque é que as pessoas riem para a câmara fotográfica. Mas o que eu quero dizer é que um dia me sentei na sala a olhar aquela galeria de fotografias de pessoas que eu em grande parte desconhecia. Era o meu bisavô materno de bigode e pose séria, casaco e colete e com alfinete de pérola na gravata . Era o meu avô paterno junto a um bispo e com um enorme machado a cortar lenha, (parece que esse meu avô trabalhava num seminário católico. E no meio de tantas fotos lá estava aquela criança que eu não conhecia,(mas que era eu), de mão dada a um sujeito,(de cuja imagem ao tempo eu não lembrava,o meu pai), rodeado pelas árvores de um jardim.

Um dia, quando fiquei com a casa de família, aquelas fotos continuavam a atormentar-me. Não sabia se aqueles meus antepassados estavam ou não fartos de comer o pó que descansava nas molduras, se queriam mesmo estar a espreitar quem visitava a casa, se não se sentiriam como eu me sentia perante as suas fotos, vazio. Resolvi tirar as fotos da parede e acho que agora é que eles finalmente descansaram.