Lembro-me daquela vez
Lembro-me daquela vez
Em que me falaste do mistério das estátuas
Daquelas estátuas
Feitas das penas dos que venceram
Estátuas que estão ali... plantadas...
Como mentiras de pedra
Deito a cabeça na minha almofada
Feita com a solidão do deserto
Dá-me um cais e eu serei o teu luzeiro
O teu verde-anilado
E assim poderei ser mar e tu a pedra
Que se ergue nos meus ombros
Lembro-me das laranjeiras
Que nos acenavam na noite do quintal
Lembro-me de apontar o dedo
Às histórias que me contavas
Lembro-me de tudo...
Menos do nó que me apertava a garganta
Ainda tenho na minha...
A mão que me passavas pela cabeça
Como um anseio de sede
Como uma escrita rasa
Feita com as cores da tua vida
De longe a longe vem-me uma dor ao peito
Sobe por mim como uma porta...ou uma farpa
Nunca mais me visto de multidão
Nunca mais assomo ao teu corpo de licor
Imagino-me a escorregar pelos cabelos dos jardins
E adormeço....