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folhasdeluar

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Não posso estar parado

Não posso estar parado. Todos os dias tenho que me reconstruir. Todos os dias tenho que absorver palavras. Aromas. Circunstâncias. Todos os dias tenho que me entranhar no altar do tempo. Descobrir maçadas. Empoleirar-me em charcos de verão. Sorrir. Não posso estar parado. Tenho que cometer o suicídio do silêncio que transporto. Tenho que me surpreender com a sensibilidade das palavras. A vida é um guizo que agito. Que me agita. Vivo a eternidade mineral dos segredos. Quero plantar um jardim e colher o castigo das ruas. Já não sei qual é a minha idade. Não me importo com a idade. Tudo desponta em abril. Tudo amarelece em setembro. E não posso estar parado. Sou a primeira ave a poisar no galho despido. Sou o pontiagudo cipreste que aponta o infinito. Sou o aluvião que anuncia a fartura. Não posso estar parado. Há imensas tempestades que tenho que interpelar. Plácidas rugas que tenho que perceber. Infinitas cigarras que tenho que escutar. Assombros e astúcias. Implacáveis desertos. Adolescências esquecidas que tento absorver. Distanciamentos. Olho a trepadeira que tapa a parede. O vento agita a buganvília. Está tudo certo. Só eu...não posso estar parado.

 

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