Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

folhasdeluar

Poesia e cenas do dia-a-dia

O amargo sabor da ânsia

Não temos um nome para a alucinação dos corpos. Não temos um nome para os campanários das igrejas. E...contudo...achamos que eles indicam a direcção dos céus. Suspeitamos da combustão dos versos. Crescemos agarrados a símbolos crestados pelo fogo do crepúsculo. Enterramos o nosso desprezo em qualquer jardim...abandonado. Sabemos que a vida é profunda. Que a desordem dos dias é profunda. Que as palavras são profundas. Sabemos isso e continuamos a viver como quem abre as portas a uma qualquer falsa santidade. Não nos detemos...nem que um rio no leve nos seus rápidos. Haveremos de aportar em alguma margem. Em algum dicionário. Em alguma frase solta. Porque somos boémios. Misteriosos. E que é através do amargo sabor da ânsia...que sentimos a chuva que nos molha a amargura.

 

Não temos um nome nem palavras para a alma. Não temos um nome para a linguagem metafísica do caos. Não temos um nome para as andorinhas nem para a desordem do tempo. Vivemos de obrigações. Somos sacrossantos reflexos do cosmos. Olhamos o espelho como quem perscruta a minuciosidade das rugas. Colamos etiquetas aos adjectivos. Amamos a profundidade das águas. E se alguém nos disser que somos falsos...então... mostramos ao mundo o nosso rancor. Partimos para a vida com os pés enfiados em sacos. Trôpegos. Somos inseridos no reflexo dos sonhos. Separamos e saboreamos as palavras. Uma a uma. Aqui sofrimento. Ali amor. E mesmo que os verbos se desfaçam...nós continuamos. Porque não há outra forma de compreender a linguagem dos dias. E porque nem sequer temos um nome que nos diga quem somos.