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folhasdeluar

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O envelope

Pegou na sua verdade com mãos de quem não sabe. Ao longe rumorejam pássaros. Sente-os. Pensa. Que parte dele pertence à vida? Que parte dele pertence a quem o vê? que parte dele pertence a quem ele não quer que pertença? Caminha pela noite de si. Caminha pelos secretos silêncios de si. Sente o refluxo de um profundo dia. Crê. Que o homem é apenas uma fracção de qualquer coisa. Uma fricção do invisível. Uma auréola impregnada de mistério. E roda sobre si. E roda sobre a fragilidade de si. E pensa. Nas coisas em que se apoia. Nos pequenos filamentos que o unem à vida. Na frágil sintonia com o absoluto. Na poderosa força do sopro que apaga a luz. Na rua... as luzes acendem-se. Os pássaros calam-se. As sombras distendem-se. Olha a noite. Sente a noite a crescer dentro de si. A noite grave. Com as suas janelas a iluminarem-se. Com os últimos passos de quem passa. Com a sua pacificação do dia. E a memória do que já foi desliza agora para o presente. Pensa se valeu a pena. Pensa em todos os pânicos. Em todas as fragilidades. Espera. Olha a noite. Ali está como se fosse plantado num oblíquo cisma. Olhando as implacáveis pedras da calçada. Condenado ao ventre da insónia. Condenado a assistir a mais um revoltear de alma. Enquanto uma claridade arrasa os seus olhos. E ele sente a vida a correr dentro de si. Insana. Fechada num discreto envelope...que ele teima em querer abrir.

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