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folhasdeluar

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O meu cão

Era um cão vadio. Era uma casa no campo. Era um cão que algum caçador tinha abandonado. Talvez fosse um cão que recusava a fazer o seu trabalho de caçar. Apareceu perto da minha casa. Fiquei com ele. Todos os dias aquele cão me acompanhava à escola primária. Era um quilómetro de brincadeira. Um dia, apareceu a aquela horrorosa camioneta que se chamava a Carroça dos Cães. Apanhou-o e levou-o. Ainda hoje escorre por mim a mágoa de tê-lo perdido assim. Ainda hoje aquele cão carrega a minha infância no seu olhar meigo. Ainda hoje nesta lonjura de mim aquele cão corre a meu lado. E eu me transformo na incandescente criança que chora a sua perda. Aprendi que não há um lugar no tempo onde nos devolvam o que nos tiram. E a memória é um poço onde os sentimentos nascem e nunca se apagam. Porque esse cão é o invisível amor imaterial que os animais deixam na nossa pele, quando por instantes volto a olhar a minha tristeza de criança desamparada. E me apago numa ilusão de o voltar a encontrar. Como se ele fosse um segredo que não digo. E uma presença de amor que carrego. Na solitária tarde em que o recordo.

 

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