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folhasdeluar

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Pequeno conto de Ano Novo

Os factos extraordinários que a seguir se narram aconteceram numa cidade perdida no tempo, mas a verdade é que aconteceram.
Era uma noite escura, as parcas pessoas que passavam na rua seguiam com o rosto inóspito e encerrado nas suas caixas de silêncio, os átrios das lojas fechadas serviam de grutas onde se abrigavam os apóstolos esquecidos pela sociedade. Os néons competiam entre si num caleidoscópio de cores para sobressair no negrume das ruas, foi então... que no lado mais escuro do asfalto e no mais profundo do silêncio da rua, ergueu-se uma luz de um buraco negro e libertou-se da sua prisão na forma de uma pequena estrela brilhante. A estrela saltou o espaço do silêncio desértico da rua e começou a crescer e tal como uma célula foi-se subdividindo, e multiplicou-se em miríades de pequenas luzes que inchavam e explodiam como fogo de artifício em fontes de luminosas letras, que depois inflamadas como que por magia se agrupavam em palavras que surpresas e maravilhadas construíam poemas. Nessa manhã, as pessoas acordaram estremunhadas e encantadas pela poesia. Começaram a analisar entre si nesse estranho fenómeno, reuniram-se nas esquinas e nas praças e todos afirmavam que a poesia tinha sido dada à luz pelo ventre de uma estrela que tinha florido em cores majestáticas, os que discutiam calavam-se enternecidos , os zangados faziam as pazes, dizia-se poesia em todo o lado, desejava-se paz e felicidade através de poemas, apertavam-se versos de encontro ao peito, os homens daquela cidade transformaram-se em poesia de carne e osso. Mas aconteceu um milagre ainda maior, os homens perceberam que há poesia no vento que açoita as ramarias, que há poesia nas folhas caídas no chão e amarelecidas pelo Outono, nos lagos dos jardins, nos chafarizes onde escorre a água cristalina, nas ondas e na espuma do mar, perceberam que os Deuses eram poetas, que as crianças eram poetas, que o entardecer era poesia e até alguns mais despertos ouviram as pedras a declamar poemas. Mas depois descobriram ainda mais profundamente que os gestos eram poesia, que os abraços são poesia, que os afectos são poesia. Então... a pequena luz, satisfeita pela infinita sabedoria dos Homens, achou que já tinha cumprido o seu dever e partiu para outras galáxias a espalhar a boa-nova mas...deixou a sua semente... que vive alojada no brilho dos olhos de todos os que amam a poesia...
Para todos um bom 2016 e …façam da vossa vida um poema...

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