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folhasdeluar

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Podíamos levar o tempo à boca

Atrevo-me a inventar a pureza dos dias. A resistir a esses claustrofóbicos espaços da memória onde a alma por vezes quer encerrar-se. Lá longe...o mundo. Essa estúpida distância a desfazer-se em partes de mim.

 

Não há como explicar de onde nos vem a negrura de um desespero. E mesmo aqueles que se aproximam e que tememos que escondam facas nos olhos...são como nós. Meros contadores de histórias. Aprendizes de feitiços transparentes. Todas as situações representam uma surpresa inconsciente. Inventamos respirações de forma a que o ar não nos falte. Desfazemo-nos em poses defensivas...para depois derramar-mos o nosso orgulho num balde de tédio. Sabemos que a única garantia que temos é a que nos conduz ao cadafalso. Sabemos que as ideias rolam e rodam em nosso redor. Tocá-las seria impensável. Há uma vontade brilhante e desnecessária em cada momento. Sentimos a responsabilidade do imediato. E é preciso um bom par de estalos do destino para que abramos o olhos...ou os fechemos e nessa escuridão vejamos o comprimento das coisas. Aquelas coisas que achamos serem tão importantes que nunca chegamos a dar-lhes a verdadeira importância.

 

Verde é o destino. Negro aquele medo de tudo o que não sabemos. O sono é a redistribuição da paz pelo nosso corpo. A acalmia da respiração. Tudo nos passa pela cabeça. Tudo é tudo e nada é sentido nem faz sentido. Uma rua é um território de estrelas. O céu uma massa negra que nos cobre o sonho. Assim como o vinho é a dignidade da uva, também os passos são a dignidade do corpo. Andar sempre. Cansar sempre. Ser sempre qualquer coisa.

 

Podíamos levar o tempo à boca. Mastigá-lo. Parti-lo em pequenos pedaços de fé. Mas fé em quê? Em quem? Em nós...é claro!