Rosto
Imobilizo-me perante o pouco que me resta
Combustão animalesca...escuro fogo
Despejo a minha vida
Sobre a folha amarelecida do carvalho
Traço ruas...desenho estradas
Com riscos de besouros sobre a areia...talho as águas
Sou a caruma espalhada pelos bosques
Ouço uma cidade crescendo
Vejo uma sombra na paisagem
Uma pedra migrante...sou eu?
A força da gravidade puxa-me através das luas mágicas
Escorre no rumor das estrelas
Leva-me aos precipícios
Onde imensos gritos emergem do escuro
São beijos...conchas...feridas incendiadas
Talho a canivete a tua memória
Aperto-a de encontro ao silêncio
As palmeiras floriram
As fontes arrepiam-se com a água gelada
Adivinho-te nua...beijo-te secretamente
Recolho todos os pedacinhos dos momentos
Em que nos debruçámos...rosto contra rosto
Comportas abertas...auto-estradas maduras
Frutos da tempestade...onde vais? Onde vamos?
Hoje os dias estão irreconhecíveis
Chegaram os fumos e as chaminés suam sonhos
As dunas cravam-se na memória
Os nossos sinais apagaram-se
Frágeis flores paridas pela saudade
As pedras aquecem...espreguiçam-se ao sol
Lentas águas crescem
Estamos perto do murmúrio dos canaviais
E já não há sombras encantadas
Os fogos ardem em silêncio
As luas recolhem-se nas suas conchas
E as memórias de tudo latejam
Como uma respiração de insectos ofegantes
Resta-nos o sono...as mãos...as pinturas
Somos como incêndios imobilizados numa fenda escura
Onde os animais não chegam e as geadas não crescem..
E onde apenas nós...estremecemos...nus
Perante o frio glacial do que desconhecemos.