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folhasdeluar

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Serei sempre o mesmo.

Serei sempre o mesmo. Sangrarei a eternidade. Decifrarei o transcendental labirinto. Conhecerei a milenária intocabilidade do absoluto. Tocarei no humilde orvalho das flores. Serei tímido como o inverno. E com as minhas mãos desenharei o deslumbramento das noites. Sei que há uma arquitectura em cada homem. Em cada jardim. Em cada impossibilidade. Sei que o homem ergue pedestais em honra das imperfeições. E a saudade é uma janela por onde se espreita o frio da noite. Mas serei sempre o mesmo. Lerei livros e versos. Escutarei pianos e violinos. Olharei o céu e a neve que desliza pela janela. Queimarei as mãos com o orvalho. E terei um subtil prazer em cada hora. Terei tosse e febre. Existirei na minha submersão. Fecharei os olhos e vibrarei com a minha fé no silêncio. E haverá um brevíssimo instante em que acreditarei na minha ilusão. Mas sei que serei sempre o mesmo. Sorrirei ao perfume das marés. Tocarei a seda dos teus cabelos. Desvendarei mistérios. Atravessarei os corredores mais longos. Abrirei as janelas à noite mais escura. Sentirei a doçura de um dia calmo. Luminoso. Translúcido. Um dia em que definitivamente acordarei para a aragem dulcíssima do outono. Não farei perguntas. Plantarei flores. Acariciarei ternamente o teu corpo. Saberei dissipar as névoas. Caminharei em estradas e em desertos como quem flutua nos confins da imaginação. Mas sei que serei sempre o mesmo. Ainda que todos os dias seja outro.

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