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folhasdeluar

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Simbiose

Era um mês como todos os outros. Os jornais falavam de inconsciências e de sociedades psicopatas. A paisagem adormecia sob a diastólica pressão do calor. As angústias eram as mesmas de todos os outros dias. As ruas repousavam numa límbica solidão. Ninguém reparava na felicidade de ninguém. As consciências apodreciam enquanto os pássaros poisavam nos fios telefónicos. Era um mês onde entardeciam os rostos de anjos de pedra nas fachadas das igrejas. Tudo se sentia. Nada se perguntava. E se um pássaro feroz por ali aparecesse...não ia ser pior que os homens que já tinham partido. Era um mês em que nada apetecia. Nem abrir a janela. Nem escutar a sobranceria do vento. Nem podar as árvores ou até olhar o cair da tarde. Era um mês em que as pessoas se tinha esquecido de olhar os céus e espantar-se com os milhões de estrelas. Já ninguém tem tempo de olhar as estrelas. Já ninguém perde tempo a olhar as estrelas. Mas há ainda muitas coisas que podemos ver e tocar. E até podemos escrever sobre os lobos solitários. Esses homens do mar que já não existem. E também sobre os heróis....que também já não existem. Já não há heróis.

 

Passamos de largo...acenamos e seguimos desenhando gestos desnecessários. Como desnecessário era esse mês em que os gritos se quebravam na névoa e os olhares se desgastavam numa simbiose de paixão.