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folhasdeluar

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Sobressaltos

Em cada medo há um silêncio gelado. Em cada desmoronar da tarde há uma espécie de sacrifício. É preciso fazer uma pausa. Apanhar os pedaços de chuva que caem no regaço dos olhos. Sei que há uma distracção em cada faísca que assombra a janela. E um orgulho em cada catástrofe que cai sobre o relvado. Somos loucos. Sobretudo... somos pessoas. Somos a medida de um vago grito. Somos a grife do desespero. Uma água que escorre pela sarjeta. Uma maldição. Um vinho que bebemos de uma assentada. Abrimos e fechamos como uma porta ferrugenta. Roncamos nos gonzos. Precisamos do óleo do amor.

 

Atravessamos os parques desertos. Atravessamos as nossas pontes. Atingimos as margens do inimaginável. E há sempre uma rua ou uma flor ou um roer de tempo à espera da nossa nostalgia. Eu sei que há. Eu sinto que há. Sempre que posso despeço-me das perguntas. Digo-lhes que partam. Ofereço-lhes a liberdade de caminhar em direcção a outras perguntas.

 

Sobra-me o tempo. Sobra-me a história de umas rugas de velho a espezinhar a solidão. E se eu te vir...talvez disfarce. Talvez desvie o olhar e desça a rua em direcção ao caos. Ocupo agora o tempo a pintar os fracassos do que não fui. Sou agora um sopro de verdade repetida. Mil vezes. Cem mil vezes. A verdade é que já me esqueci da verdade que devo repetir. Pode pois a verdade esconder-se na estante onde os filósofos dormem? Ou os poetas? Santo Agostinho ou Éluard a dormitarem no seu estendal de sentimentos. Pode pois a verdade encontrar-se na insatisfação de uma flor? Ou na sonolência de um gato preto? Não sei! Sei que sou o passageiro de um momento raro. Aquele momento em que acordo e me debruço sobre tudo o que me sobressalta.

 

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