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folhasdeluar

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Somos Dante e Maquiavel

Sabemos qual a chantagem dos dias. Conhecemos de cor o jogo impenetrável dos dias. Resistimos à insónia. Resfolegamos como um puro sangue lusitano quando nos dizem que qualquer coisa serve para nos cobrir. Somos incapazes...inseguros...às vezes traiçoeiros. Cresce em nós a violência que escondemos por detrás de um rosto afável. Ah! Como nos apetece linchar a puta da vida. Colá-la numa parede como um cartaz a dizer que não a percebemos. Metodicamente vamos enchendo o tempo com heresias. Rejeitamos o incómodo e o absoluto. Somos a ponta do novelo que nos enlaça e somos também o novelo que criámos em nós. Aprisionados à condição que nos asfixia mostramos os dentes com as cáries das perguntas sem resposta. Corrigimos as trajetórias da moralidade. Jantamos e depois aprendemos a justificar-nos lendo compêndios de absurdas teorias. Um pouco assim como quem não faz nada de válido.

 

Vivemos na periferia das comédias e saramos as traições com a esperança desesperada dos traidores. Somos as estátuas de um tempo equestre. Um tempo fácil de enfiar nos dias e nas noites que cosemos com agulhas de tédio. Embarcamos, como todos os outros, no grande Acto das comédias. Somos Dante e Maquiavel buscando o caminho sem fim do céu...do inferno...da guerra...e adoramos o burburinho dos patinhos no lago.

 

Um dia olhei a minha preguiça exposta nos papéis que tinha sobre a secretária. Nesse dia fiz dela uma amiga. Abri-lhe a minha porta e compreendi que não há pressa que tenha pressa. Compreendi que eu era a pressa com que queria apressar a pressa...e então...descansei.