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folhasdeluar

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Tempo coalhado

Fundo-me com a terra na imperfeição de mim. Em minha volta uma luz fina. Uma luz que dá sentido ao silêncio. Olho em volta. Procuro o meu extremo. Aperto nas mãos a agonia de um sonho. A noite. Olho em volta e vejo um carreiro que contorna as hortas. Uma correria de sombras. Franja de terra branca a marcar os meus passos. Silêncio cravado nas oliveiras. Choro nocturno de cigarras. Ao alto...a vastidão de uma abóbada estrelada. O tempo coagulado na minha memória. Já nada existe. A profundidade do tempo soterrou o som dos grilos. A calma da noite absorveu a ruína dos medos. Já não há noite. Nem ruínas. Nem medos. Mas há flores dentro de mim. Há malmequeres. Papoilas. Azedas. Há a alucinação de uma escadaria. Um terraço...as Três Marias. há um calor colado à minha lembrança. Uma chama mortiça...mas que ainda tem brilho. Cerca-me a noite. Cerca-me o súbito relâmpago de uma fogueira. Cerca-me a vertigem de tudo o que já foi. Quebrar o tempo. Ressaltar de luar em luar. Sentir a cumplicidade de um mistério. O que foi e o que virá. Sentir o brutal bafo do desconhecido. Sentir o que não se sente. O que não faz sentido. E...não saber o que não faz sentido. Quantos milénios tem um homem? Quantas vezes tentou espreitar pelas frestas da agonia? Mesmo sabendo que nunca saberá o que é a agonia. Vivemos em memórias. O presente é uma memória. Um sono filosófico. Uma circunstancial realidade. Quem pode dizer que o passado não é presente? Olhar a catedral de luzes nocturnas...e sentir que ali estão...imutáveis tempos. Passados e presentes. A cada um o seu sol. O seu lume. A sua aragem. A cada um a possibilidade de dilatar a Vida. A cada um a possibilidade de tocar o macio do tempo. De ressuscitar em luminosas manhãs. A cada a possibilidade de acreditar nas folhas secas. De aceitar o empalidecer dos dias. De ser o que será. Sem ser o que é. Olho em volta. Toco na minha absorção. O tempo coalhado na minha ilusão.

 

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