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folhasdeluar

Poesia e outras palavras.

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Poesia e outras palavras.

Vidraça...

Pego na minha tarde. Leio. O livro é um túmulo vivo. Dele despegam-se palavras. Ideias. Espaço e pedras. Silêncios. Portas que se abrem. Campos ermos e plantas secas. Muros. Jardins suspensos e floridos canteiros. Tentações que já apodreceram. Mãos que já caíram. Vozes. No entanto...a tarde pega-se a mim. Estática frontaria da passagem das horas. Leio. As memórias rangem. Escorregam pelo soalho envernizado. Leio. Há uma escadaria em cada livro. Há bolor e escuro. Paisagem e amor. E há uma tarde de espectros a assomar à vidraça. A tarde trás um odor a sentimentos coalhados. Uma irresistível anemia. Uma imobilidade de mofo. Prende-me. Leio. Busco-me em cada frincha do silêncio. Divago. Leio. A casa sufoca. O medo range. Leio. A luz entra. Circula livremente pelo meu corpo. Aquece-me como uma metáfora. Leio. Esvazio o olhar. Sigo a rua. Sinto a brancura de um cansaço. Percorro-me como quem passeia num caminho de terra virgem. A tarde abraça-me. Leio. Um pássaro petrifica-se na janela. Lança uma melodia. Escuto-o na minha invisibilidade. A tarde desfaz-se. A luz torna-se veludo. Leio. Olho em volta. O ar está deserto. O poente é uma costura no horizonte. O meu olhar prolonga-se. A tarde caiu. Já não leio.Fico...

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